Arquivos Mensais:agosto 2011

Começo conjectural da história humana

Um resumo da bela interpretação que Kant fez do Gênese bíblico:

[...] a saída do homem do Paraíso, que a razão lhe apresenta como a primeira instância de sua espécie, não significa outra coisa que a passagem da rudeza de uma criatura puramente animal para a humanidade, dos domínios nos quais prevalecia o governo do instinto para aqueles da razão; numa palavra, da tutela da natureza para o estado de liberdade. A questão de saber se o homem ganhou ou perdeu com essa mudança não mais se impõe quando olhamos a destinação de sua espécie, que reside unicamente em progredir rumo à perfeição, pouco importando os erros no início, durante os sucessivos ensaios empreendidos por uma longa série de gerações em sua tentativa para atingir aquele alvo. No entanto, essa marcha, que para a espécie é um progresso que vai do pior para o melhor, não é precisamente a mesma coisa para o indivíduo. [...]

Curioso como essa era a mesma visão de Joseph Campbell. Um filósofo e um mitólogo em comunhão de pensamentos não é algo comum de se ver.

Contos #6 – Inteligência Artificial

Paiêê, o passarinho tá nascendo! Ele está se machucando, posso ajudar a quebrar a casca?

Não, filha.

Por quê, pai?

Porque, filha, se nós quebrarmos a casca pra ele, o pobrezinho não terá treinado seu bico para abrir as sementes depois que sua mãe parar de alimentá-lo. Suas perninhas não terão firmeza o suficiente para sustentá-lo e ele se sentirá inseguro; enfim, ele pode se machucar, mas o único jeito de garantirmos a sua liberdade é deixá-lo abrir a casca sozinho, com suas próprias forças.

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Pai, pode me explicar mais uma vez por quê não aprova meu relacionamento com J.B.?

Já te disse, filha. Eu te amo demais pra te deixar quebrar a cara assim. Esse cara pode estar com você só por interesse, ele pode te magoar e te machucar qualquer dia, e enquanto eu viver, não permitirei que a minha pequenina se machuque. Você pode se tornar uma solteirona infeliz, insegura e fácil de enganar, mas não se machucará.

Contos #5

É tarde. O beco escuro parece vazio.

Um olhar mais atento, no entanto, mostra algum movimento por ali: um gato busca algo para colocar no estômago, nas sacolas de lixo ao lado da parede.

Parede que também apoia as costas curvas de um sujeito maltrapilho próximo. Ele não se importa com a presença do gato, afinal tinha mais afeição por outro animal, talvez por uma questão de identidade. E era exatamente nisso que pensava agora, cabisbaixo olhando para  o que estava em suas mãos:

Qual seria o próximo rato morto?

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